coluna social
dias de dissenso
de apicius, passo a um momento breve de ibrahim sued. soh para manter este blog andando, enquanto tento por os pensamentos e as anotacoes (as poucas que sobreviveram -- desenvolvi na escocia o habito de rasgar todos os papeis que achava que pudessem incriminar a mim ou a alguem) em ordem.
tinha esquecido de contar que, entre as pessoas que aplaudiram (bom...) minha performance de dj em edimburgo, estavam dois membros dos 'yes men'. se voce ainda nao viu o filme deles -- chamado, olha soh, 'the yes men' --, recomendo se virar. a maneira ideal, ainda que nem sempre possivel, eh ter uma internet de banda larga em casa, ou em algum lugar; baixar um programa chamado 'emule'; buscar 'yes men'; e fazer o download. altamente recomendados, tanto o filme, quanto o 'emule'. para quem, como eu, eh do tempo do 'napster', descobrir o 'emule' foi como ser esquecid@ pelos pais numa loja de brinquedos.
e ainda tem a vantagem de saber que voce estah contribuindo para a erosao da propria possibilidade -- para nao dizer a justificacao -- dos direitos de propriedade intelectual. se encher de musica e filmes de graca e por uma boa causa: parece o 'live8'.
mais coluna social: ontem fui a um churrasco na casa de m. e d. (e de l., o bebe mais lindo que jah conheci). lah, conversando com j. e r., ouvi sobre os novos planos do indymedia londres, que me parecem muito promissores.
em toda parte na inglaterra, todo mundo fala na necessidade de superar o impasse de o mundo do 'ativismo' ter se transformado numa subcultura fechada sobre si mesmo, falhando na funcao de desenvolver um movimento politico realmente socializado. os modelos de onde quer se chegar sao normalmente tres: italia (ainda que tod@s critiquem o modelo 'disobbedienti' de organizacao); catalunha; e america latina.
infelizmente, ateh aqui eu jah tinha visto isso muito como discurso e pouco como pratica, ou pelo menos um conjunto de ideias concretas com as quais se pudesse tentar atingir um desses modelos. tenho a impressao que a mareh comeca a mudar; esperemos.
parte da discussao foi sobre o fato de que ha bastante gente 'do movimento' hoje conseguindo financiamento para pesquisas sobre 'o movimento'. o fato de isso estar acontecendo me parece, de certa forma, confirmar a analise que eu fazia em outro post, sobre a impropriedade de se classificar o movimento europeu como classe media. o que ha eh um caso unico em que novos sujeitos produtivos sao, ao mesmo tempo, sua propria 'massa' e sua propria 'vanguarda' (essa metafora se auto-destruirah em tres segundos). esse me parece ser o campo restrito de aplicacao das teses de 'imperio' e 'multidao'. ainda nao estou convencido da possibilidade de estende-las sem problemas a outros campos. (quem sabe eu discuta isso no futuro, num post com o nome presuncoso de 'da hegemonia qualitativa do trabalho imaterial'.)
ao mesmo tempo, isso levanta varias questoes sobre a funcao e a localizacao dess@s pesquisador@s. como evitar que isso funcione apenas como etnologia auto-referencial e portanto reforce o isolamento de uma subcultura? nos meus tempos de graduacao, quando eu nao fazia pesquisa mas fazia extensao universitaria, me davam calafrios a ideias que cert@s professor@s -- de mais a mais considerad@s 'de esquerda' -- tinham para pesquisas. tratavam menin@s de rua ou populacoes marginalizadas como uma nova tribo de nhambiquaras; colhidos seus achados, eles eram remetidos ao circuito da academia, onde mofavam satisfeitos sem que nada tivesse acontecido aquel@s que tinham sido o objeto do estudo.
o que serah que vale mais para uma comunidade: doze estagiari@s recebendo bolsas simbolicas para aplicar questionarios, ou uma parte da verba de pesquisa usada para, digamos, a compra de equipamento e qualificacao de pessoas para operar, digamos, uma radio comunitaria? o que vale mais, produzir um programa de tv para o horario nobre ou um texto publicado numa revista 'especializada' (leia-se de circulacao restrita a um ambiente -- o academico -- onde nao ha a rigor nenhum problema de liberdade de expressao, jah que se pode dizer tudo, conquanto nada faca realmente uma diferenca)? deixar uma estrutura permanente, seja fisica, seja cultural, ou 'fazer conhecer a realidade das pessoas que vivem nessa condicao'?
alias, se alguem me perguntar qual eh uma das minhas tres grandes decepcoes com o governo lula, uma delas eh: nenhuma palavra foi dita, nada foi feito sobre extensao universitaria.
as outras duas, nao sei. a concorrencia eh fortissima.
mas achei um ponto ao qual serah necessario voltar em breve: essa questao de situar os sujeitos produtivos, nao soh enquanto produtivos de riqueza, mas quanto ao sua funcao relativa no funcionamento de um regime de producao de saberes, de verdade, de subjetividades.
ibrahim sued jamais falaria disso.
em tempo: sobre o 'emule', um amigo que tentou baixar o programa achou, inicialmente, uma versao paga. nao se deixe enganar; eh possivel baixar o 'emule' de graca (tente 'emule free download' no google).
