Thursday, July 14, 2005

coluna social

dias de dissenso

de apicius, passo a um momento breve de ibrahim sued. soh para manter este blog andando, enquanto tento por os pensamentos e as anotacoes (as poucas que sobreviveram -- desenvolvi na escocia o habito de rasgar todos os papeis que achava que pudessem incriminar a mim ou a alguem) em ordem.

tinha esquecido de contar que, entre as pessoas que aplaudiram (bom...) minha performance de dj em edimburgo, estavam dois membros dos 'yes men'. se voce ainda nao viu o filme deles -- chamado, olha soh, 'the yes men' --, recomendo se virar. a maneira ideal, ainda que nem sempre possivel, eh ter uma internet de banda larga em casa, ou em algum lugar; baixar um programa chamado 'emule'; buscar 'yes men'; e fazer o download. altamente recomendados, tanto o filme, quanto o 'emule'. para quem, como eu, eh do tempo do 'napster', descobrir o 'emule' foi como ser esquecid@ pelos pais numa loja de brinquedos.

e ainda tem a vantagem de saber que voce estah contribuindo para a erosao da propria possibilidade -- para nao dizer a justificacao -- dos direitos de propriedade intelectual. se encher de musica e filmes de graca e por uma boa causa: parece o 'live8'.

mais coluna social: ontem fui a um churrasco na casa de m. e d. (e de l., o bebe mais lindo que jah conheci). lah, conversando com j. e r., ouvi sobre os novos planos do indymedia londres, que me parecem muito promissores.

em toda parte na inglaterra, todo mundo fala na necessidade de superar o impasse de o mundo do 'ativismo' ter se transformado numa subcultura fechada sobre si mesmo, falhando na funcao de desenvolver um movimento politico realmente socializado. os modelos de onde quer se chegar sao normalmente tres: italia (ainda que tod@s critiquem o modelo 'disobbedienti' de organizacao); catalunha; e america latina.

infelizmente, ateh aqui eu jah tinha visto isso muito como discurso e pouco como pratica, ou pelo menos um conjunto de ideias concretas com as quais se pudesse tentar atingir um desses modelos. tenho a impressao que a mareh comeca a mudar; esperemos.

parte da discussao foi sobre o fato de que ha bastante gente 'do movimento' hoje conseguindo financiamento para pesquisas sobre 'o movimento'. o fato de isso estar acontecendo me parece, de certa forma, confirmar a analise que eu fazia em outro post, sobre a impropriedade de se classificar o movimento europeu como classe media. o que ha eh um caso unico em que novos sujeitos produtivos sao, ao mesmo tempo, sua propria 'massa' e sua propria 'vanguarda' (essa metafora se auto-destruirah em tres segundos). esse me parece ser o campo restrito de aplicacao das teses de 'imperio' e 'multidao'. ainda nao estou convencido da possibilidade de estende-las sem problemas a outros campos. (quem sabe eu discuta isso no futuro, num post com o nome presuncoso de 'da hegemonia qualitativa do trabalho imaterial'.)

ao mesmo tempo, isso levanta varias questoes sobre a funcao e a localizacao dess@s pesquisador@s. como evitar que isso funcione apenas como etnologia auto-referencial e portanto reforce o isolamento de uma subcultura? nos meus tempos de graduacao, quando eu nao fazia pesquisa mas fazia extensao universitaria, me davam calafrios a ideias que cert@s professor@s -- de mais a mais considerad@s 'de esquerda' -- tinham para pesquisas. tratavam menin@s de rua ou populacoes marginalizadas como uma nova tribo de nhambiquaras; colhidos seus achados, eles eram remetidos ao circuito da academia, onde mofavam satisfeitos sem que nada tivesse acontecido aquel@s que tinham sido o objeto do estudo.

o que serah que vale mais para uma comunidade: doze estagiari@s recebendo bolsas simbolicas para aplicar questionarios, ou uma parte da verba de pesquisa usada para, digamos, a compra de equipamento e qualificacao de pessoas para operar, digamos, uma radio comunitaria? o que vale mais, produzir um programa de tv para o horario nobre ou um texto publicado numa revista 'especializada' (leia-se de circulacao restrita a um ambiente -- o academico -- onde nao ha a rigor nenhum problema de liberdade de expressao, jah que se pode dizer tudo, conquanto nada faca realmente uma diferenca)? deixar uma estrutura permanente, seja fisica, seja cultural, ou 'fazer conhecer a realidade das pessoas que vivem nessa condicao'?

alias, se alguem me perguntar qual eh uma das minhas tres grandes decepcoes com o governo lula, uma delas eh: nenhuma palavra foi dita, nada foi feito sobre extensao universitaria.

as outras duas, nao sei. a concorrencia eh fortissima.

mas achei um ponto ao qual serah necessario voltar em breve: essa questao de situar os sujeitos produtivos, nao soh enquanto produtivos de riqueza, mas quanto ao sua funcao relativa no funcionamento de um regime de producao de saberes, de verdade, de subjetividades.

ibrahim sued jamais falaria disso.

em tempo: sobre o 'emule', um amigo que tentou baixar o programa achou, inicialmente, uma versao paga. nao se deixe enganar; eh possivel baixar o 'emule' de graca (tente 'emule free download' no google).

Monday, July 11, 2005

metacomentario

soh li agora os comentarios feitos a posts anteriores. obrigado a tod@s. felizmente, nao fui preso; dei bastante sorte ateh.

nao sei se alguem ainda estah acompanhando este blog -- com a sua defasagem em relacao aos acontecimentos e o fato de que o g8 nao eh mais o assunto mais importante da midia, nem aqui, nem no brasil (onde, descubro agora, o pt parece encontrar-se em estado avancado de decomposicao), me pergunto quem ainda terah paciencia.

eu pretendia encerrar os trabalhos ontem, mas vou seguir mais alguns dias. volto para londres amanha, torcendo que a distancia -- temporal e fisica -- me ajudem a fazer uma avaliacao de tudo que aconteceu.

um abraco e ateh amanha.

when the circus leaves town...

anteontem ajudei a desmontar o espaco do indymedia. nao foi no piquenique de despedida que el@s marcaram, me enfurnei no escritorio para escrever. cada vez menos gente na cidade. edimburgo, cidade positivamente linda e agora ainda por cima ensolarada, volta ao normal. eh estranho ouvir as sirenes da policia e ver os carros passarem reto em outra direcao. eh um alivio, mas a sensacao tambem eh um pouco de 'ei, nos estamos aqui!'.

as pessoas desaparecem, muitas delas sem se despedir, @s ingles@s, em especial, sao muito estranh@s em relacao a essas coisas. parecem ter uma relacao extremamente profissional, dao um 'tchau' e vao embora, ou nem 'tchau' dao. sinto saudades de fazer politica no brasil nessas horas: o calor, a abertura.

alias, outra coisa que sempre me chama a atencao eh a repressao sexual d@s ativist@s aqui na europa, principalmente alem@s e ingles@s. ha uma coisa meio paranoica, onde qualquer comportamento da parte de um homem pode ser suspeito de sexismo. eh interessante como tudo parece reproduzir uma ideia de que a mulher eh vitima e o homem predador; ha espacos 'women only', em que as mulheres podem ficar 'livres da opressao masculina' (essa eh a descricao do espaco, nao estou inventando).

pode ser que eu seja simplesmente um latino machista, mas a coisa toda me parece meio histerica e desproporcionada. nao entendo como eu possa oprimir uma mulher simplesmente por compartilhar o mesmo espaco que ela. o mais interessante eh que, ao contrario do brasil -- onde sempre acreditei que as pessoas envolvidas em politica e arte, os dois circulos em que me movia, eram as sexualmente mais liberadas -- , aqui as pessoas envolvidas em politica sao visivelmente menos liberadas que pessoas 'normais' da mesma idade. vai entender.

(outra coisa que me parece estranhissimo eh a imensa maioria das pessoas ser vegetariana ou 'vegan'. eu gosto de carne. e nao escondo.)

mas a falta de gente comeca a ser um problema. ha tres pessoas no infopoint agora, eu e j. no escritorio -- ambos os lugares precisam ser desocupados amanha -- e e. estah fazendo 'prisoner support' do lado de fora do presidio, esperando duas pessoas que devem ser liberadas hoje.

por outro lado, @s ativistas escoces@s com que conversei me dizem que a coisa toda foi positiva para el@s, e possivelmente criarah uma abertura muito maior no futuro. por outro lado, toda as pessoas daqui com que conversei me pareceram muito positivas. pareciam entender muito bem o que estava acontecendo, e mesmo nos achando meio estranhos, pareciam nos apoiar.

nesse ponto do 'meio estranhos', acho que isso significa o seguinte: essas pessoas dificilmente topariam vir participar de alguma coisa. mas elas entendiam porque estavamos aqui, concordavam de maneira geral e pareciam respeitar muitissimo o fato de que havia gente disposta a colocar seus corpos na linha em nome daquilo em que acreditavam.

talvez essa seja uma das coisas mais importantes que se possa fazer hoje. quando a arma eh o terror, a coragem torna-se mais necessaria. e contra relacoes de poder que se inscrevem nos nossos corpos, a ultima barreira serah, ao fim, nossos corpos mesmo.

@s escoces@s veem isso.

big in edinburgh

na noite do dia 8, o pessoal do indymedia tinha marcado uma festa de desopilacao geral. soh na prepararam coisa nenhuma, ateh eu perguntar se ia sair, afinal de contas. em meia hora, arranjei um laptop, um discman (cujas pilhas teriam que ser substituidas durante a festa mais tarde!), ocupei a aparelhagem de som do forest cafe e comecei a botar som.

no inicio, havia uma grande quantidade de gente dormindo nos sofas e poltronas. umas tantas acordaram. acho que isso conta como sucesso de publico.

quando um dos voluntarios que estavam trabalhando no bar aquela noite veio me dizer que a festa tinha que acabar, peguei o cd mais a mao e achei uma musica perfeita para acabar a noite: 'police and thieves', de junior marvin, na versao do clash.

'police and thieves in the streets
fighting the nation with their guns and ammunition

from genesis to revelation
the next generation will be complete

all the crimes committed day by day
no-one's trying to stop them in anyway
all the peace-makers turn wild officers
hear what i say...'

'make celebrity politics'

na tarde do dia 9, conversei com stuart hodkinson, que ainda nao me devolveu a camiseta que lhe emprestei e vem fazendo um excelente trabalho jornalistico sobre os bastidores da make poverty history (os textos dele podem ser encontrados no site da revista red pepper). ele me contou das brigas internas da mph depois que saiu o comunicado do g8.

de um lado, war on want e world development movement, duas ongs com uma linha politica bastante avancada e critica, diziam que era impossivel a mph tirar uma declaracao positiva diante do avanco nulo com que o g8 acenara; do outro lado, oxfam e action aid, duas ongs da linha 'caridade' que prestam grandes servicos aplicando politicas neoliberais no sul global, dizendo que eles tinham que se concentrar nos pontos positivos (quais, meu deus?) e tirar uma declaracao de apoio. interviu a cafod, talvez a mais 'direitosa' de todas as ongs envolvidas, e disse: 'nao'. nao havia como ser positivo, porque nao havia nada de positivo a dizer.

preparou-se a declaracao critica da mph, enquanto os cabecas da campanha entravam em contato com bono vox e bobby geldof para pedir a eles que ficassem quietos e deixassem a mph se manifestar com sua propria voz.

bono e geldof marcaram sua entrevista coletiva para uma hora antes da marcada pela mph. na entrevista deles, o g8 saiu coberto de elogios, e geldof deu um tapinha nas suas proprias costas: 'nos vencemos'. quando chegou a hora da verdadeira mph, e nao seu grupo de celebridades/liderancas auto-proclamadas, descer o sarrafo no g8, a imprensa jah tinha visto o que queria. as celebridades acham que foi um sucesso. podemos tod@s dormir sossegad@s. a pobreza jah eh historia.

tem uma palavra para isso em ingles, 'whitewash'. procure no dicionario.

eh asqueroso.

e agora? the afterbomb is the aftermath

serah que alguem vai levantar essas questoes? serah que alguem vai dizer que o chefe da inteligencia da policia londrina estava fazendo rigorosamente nada em edimburgo na noite dos atentados?

duvido. o 'timing' do mundo fora desse g8 foi, ahem, perfeito. no dia em que quase se parou a cupula, as manchetes falavam da vitoria da proposta de londres para receber as olimpiadas, o que vai servir a um plano bilionario que enriquecerah construtoras e especuladores imobiliarios -- empurrando milhares de pessoas para fora de uma das regioes mais pobres de londres, alterando completamente a area entre hackney e stratford, clapton e walthamstow. no dia seguinte, falava-se da 'batalha' soh ateh o meio da tarde, quando os jornais vespertinos comecaram a sair com manchetes simples e diretas do tipo: 'carnificina'.

na tarde do dia 8, quando todos os jornais e todo mundo soh falava disso, eu estava no espaco do indymedia acima do forest cafe enquanto saia o comunicado final do g8. conforme o esperado, muito palavrorio, varias boas intencoes, e mais do mesmo.

levando-se em conta todos as cores do espectro politico que se manifestaram de algum forma ao redor deste g8, nunca houve tanta atencao dirigida a uma cupula. isso em si jah poderia ser considerado uma vitoria: o 'mainstream' politico se apropriando de coisas de que ateh ontem soh nos falavamos, e procurando puxar uma versao (ainda que diluidissima e, ao fim, contraditoria) da mesma agenda que puxavamos ha alguns anos.

mas importante que isso, o que se viu foram basicamente duas atitudes politicas em relacao ao g8. de um lado, make poverty history optando por campanhas midiaticas carissimas, celebridades e megashows com o objetivo de fazer lobby junto ao g8 para arrancar algumas concessoes. por outro lado, dissent! com uma opcao pela desobediencia civil e um objetivo declarado de evitar que a cupula acontecesse, para salientar o fato de que o g8, como outras instancias internacionais, eh inteiramente ilegitimo e 'unnacountable' -- e uma instituicao sem 'accountability' nao pode sofrer lobby, apenas oposicao direta; e quaisquer concessoes que possam fazer, nao passarao de alteracoes cosmeticas que possam ser facilmente acomodadas dentro de objetivos maiores. ou serao canalhice simples e pura, como a ideia de recomprar os servicos publicos e a exploracao de riquezas naturais da africa, para em troca dar-lhe o perdao de algumas dividas, algum apoio finaneiro, nenhum equilibrio no comercio internacional, e transforma-la em mais uma imensa zona de 'maquiladoras' capaz de concorrer com a china por sua forca de trabalho baratissima.

a essas duas atitudes de oposicao, o g8 teve duas respostas diferentes. aos que marcharam em branco, vestiram pulseirinhas (metade delas, como foi revelado, produzidas num 'sweatshop' na asia!) e assistiram bono vox abrir os seus bracos em pose messianica e abencoar seus seguidores -- a resposta foi: 'nao importa'. nenhum avanco visivel em relacao ao cambio climatico, uma coisa que outra em relacao a africa, e era isso.

aos que apelaram para a desobediencia civil, a resposta foi: 'nem tentem'. a estrategia sempre foi a de evitar que qualquer manifestacao, como o 'carnival for full enjoyment', fosse possivel; e quando acontecesse, como o proprio 'carnival', que fosse uma desagradavel experiencia de queda-de-braco com a policia, enquanto eventualmente el@s apelariam para a forca primeiro, e no dia seguinte os jornais estampariam: 'vandal@s', 'vagabund@s', 'criminos@s'.

essa eh a guerra ao terror: a concessao de arbitrio quase absoluto ao uso da forca policial, casada com um sistema judicial que ainda guarda algumas semelhancas com aquilo que se chamava 'estado de direito', mas que tem cada vez mais suas zonas de arbitrio. e a decisao de onde as zonas de arbitrio se aplicam eh, ela mesma, uma questao de arbitrio, baseada em presuncoes de potencialidade criminosa -- ou seja, baseaveis em absolutamente nada.

nao me empolgo com teorias de conspiracao; para mim, devem muito bem ter sido 'terrorist@s islamic@s' que atacaram londres (embora eu acredite firmemente que a al qaeda, enquanto uma rede internacional efetivamente organizada, nao exista. alias, a primeira vez que o nome 'al qaeda' foi usado foi num tribunal americano, onde se julgavam os acusados pela primeira tentativa de atentado ao world trade center. para as leis americanas de crime organizado, criadas para tratar da mafia, voce precisa provar a existencia de uma organizacao para acusar alguem de formacao de quadrilha. logo...)

o que me interessa mais eh o uso politico a que se serve esse terrorismo, que (acredito) nao tem condicoes de tornar-se uma forca social e politica de nenhuma especie, e por isso tem sua sobrevida restrita a funcao de espectro midiatico que vez em quando produz imagens e palavras que assustam a tod@s em todo o mundo. em 2001, a capa de legitimidade que a globalizacao neoliberal vestira por uma decada estava definitivamente em farrapos; a amplificacao desse espectro terrorista serviu para criar uma maquina de guerra global permanente, onde a legitimacao politica tornou-se secundaria em relacao a superioridade belica, movimentacoes militares nao se distinguem mais de movimentos especulativos do capital, assim como o 'estado democratico de direito' e a politica representativa liberal foram engolidas por 'segredos de estado', 'estados de excecao', 'poderes especiais'.

eh claro que governos que mantem guantanamo ou belmarsh (sudeste de londres) nao tem mais a preocupacao de legitimidade no sentido antigo, seja juridicamente (por conformidade com leis superiores), seja politicamente (por apoio da opiniao publica). eles soh precisam de um sentimento vago de medo, um fanbtasma que a qualquer instante pode sair de debaixo da cama e explodir um onibus; eh constitutivo dessa situacao que a ameaca seja vaga, misteriosa, esteja em toda parte. o poder policial, ao contrario da lei penal, desde quase sempre trabalhou em termos de potencialidade; mas a potencialidade eh cada vez mais difusa, invisivel; os governos dizem que sabem mais a respeito, mas nao podem dizer nada por 'razoes de estado'.

o que eu vi na escocia foi um governo democraticamente eleito (vah lah), embora por um voto de 'falta de opcao' ('nao tem ninguem melhor que ele, entao vai ele'), reprimir a manifestacao de dissenso politico. nao reprimir no sentido de deixar acontecer e retaliar, mas de nao deixar nem acontecer. tudo com base na potencialidade daquilo ser perigoso, sabe lah, podem ateh haver terroristas infiltrad@s. ao mesmo tempo, o governo desembarcava de mala e cuia numa campanha (a 'mph') que tinha entre seus objetivos, ironicamente, fazer lobby junto a esse mesmo governo; gordon brown saiu a frente da grande marcha, auto-abencoando-se como futuro primeiro-ministro. serah que o plano deu certo, e as pessoas agora vao pensar que a inglaterra eh uma forca benefica no cenario internacional, e esquecer a guerra no iraque?

serah que as pessoas vao lembrar que londres tornou-se um alvo preferencial justamente por causa da guerra no iraque?

serah que vai ter alguem para dizer que se ha uma coisa capaz de espalhar mais terror, eh justamente a tal guerra contra ele?

nao acredito que o clima aqui vah ser tao emocional quanto nos estados unidos. nao existe essa tradicao de patriotismo desvairado aqui, nem as pessoas sao tao -- perdao! -- bregas na inglaterra quanto na ex-colonia.

mais vi uma manchete de um jornal ontem que me deu arrepios: 'vigilancia de emails poderia ter evitado atentados.'

se a unica resposta for 'mais do mesmo', isso significa que haverah cada vez menos espaco para fazer perguntas.

quando eu olhei a met nos olhos

dias de dissenso

saih de stirling no inicio da tarde do dia 7. dormi no trem, meu primeiro sono em muito tempo. pulei do trem em edimburgo e quase esbarrei em tres policiais, um gales, uma escocesa, outro da met. o gales e a escocesa foram bem gentis e tomaram a iniciativa da revista, enquanto o da met ficava olhando serio num canto e de tempos em tempos cochichava no ouvido d@s outr@s. foi quando levaram meu lenco amarelo.

no meio da revista, a policial escocesa, com uma cara extremamente gentil, comecou a puxar assunto, me perguntando como eu estava.

'-- francamente, prefiria nao estar aqui com voces.'
'-- ah, e por que?', perguntou ela.
'-- porque prefiria que voces estivessem em alguma outra parte, onde pudessem ser realmente uteis.'
o policial da met fechou ainda mais a cara e se mexeu, desconfortavel.
'-- ah, e que lugar seria esse?', seguiu a escocesa.
olhei o policial da met nos olhos e tive a clara impressao que @s outr@s dois tiraram algum prazer sadico da situacao.
'-- em londres hoje de manha.'
'-- isso nao eh relevante', disse o policial londrino, se mexendo ainda mais desconfortavel.

as coisas em perspectiva

dias de dissenso

no momento em que as bombas explodiam em londres, imagino que quatro mil manifestantes (dos cinco a seis mil estimados no total) dormiam num acampamento em stirling; em torno deles, cerca de trezentos policiais, metade policia escocesa, metade policia londrina (met, metropolitan ). as sete horas daquele mesmo dia, o chefe da equipe de inteligencia avancada da met (fit, forward intelligence team) caminhava calmamente e fazia perguntas vagas dentro do centro de convergencia de edimburgo -- que estivera fechado pelos dois ultimos dias e estaria permanentemente fechado a partir dali. em outras palavras, o chefe do temivel servico de inteligencia da policia, alem de estar no lado errado do pais, tambem estava trabalhando com uma inteligencia muito deficiente. cerca de duas horas antes, a policia havia comecado a cercar o forest cafe, sede do indymedia em edimburgo, mas depois parou. glasgow, stirling e edimburgo viraram zonas onde ter mochilas e roupas pretas era imediatamente suspeito; a policia podia declarar zona 60 a qualquer momento e te revistar, apreendendo anotacoes e coisas que pudessem 'inteira ou parcialmente' ser usadas como mascaras. levaram um dos meus lencos 'we are everywhere' (o amarelo); mas nao acharam o lenco laranja.

(essa coisas das mascaras eh especialmente irritante: el@s enchem as ruas de camera, criam equipes e mais equipes de fotografos e cinegrafistas, intimidam qualquer pessoas que queira simplesmente estar na rua por algum motivo. se voce quer proteger a sua privacidade, voce quer alguma coisa que esconda seu rosto. mas aih el@s decidem que carregar alguma coisa assim eh suspeito. beleza.)

o cerco em stirling afrouxou no fim da manha do dia 7, talvez como um momento de senso de ridiculo, talvez como respeito as pessoas que saiam, muitas chorando, ou visivelmente preocupadas. depois foi remontado, e permaneceu ateh o dia 10 de manha, quando a policia finalmente invadiu o acampamento para fazer uma revista. achou onze tacos de golfe enrolados em espuma. tres dias depois que bombas explodiram em londres.

em alguns casos, cortes foram fechadas a tod@s menos @s acusad@s, criando julgamentos secretos. um relato mais completo da situacao legal pode ser encontrado em http://www.dissent.org.uk/content/view/262/110/

conversando com o policial escoces responsavel pela cerca no acampamento de stirling, e. ouviu de sua boca o seguinte: 'naquele noite em que chegamos aqui, houve uma longa discussao entre os escoceses e a met.' (parantese: o fato de levar duas horas para a policia dizer o que queria parece, de certa forma, corroborar essa historia.) 'se a met tivesse vencido, teria acontecido uma outra genova. alguem teria morrido. foi a chefe da operacao por parte da policia escocesa que bateu o peh e evitou o pior.'

isso, na vespera de explodirem bombas em londres.

a maior operacao militar da historia da escocia. 11 mil policiais, mais 2 mil marines americanos, contra cerca de 5 mil 'perigos@s anarquistas'. campanha permanente pela midia, preparando a populacao para o armagedom preto e vermelho.

na manha do dia 7, uma materia do 'metro' de edimburgo mostrava fotos dos campos em frente a gleneagles, com sua aparencia de batalha medieval, e estampavam acima a manchete: 'nossos piores pesadelos se tornaram realidade.'

esse jornal foi publicado na manha em que as bombas explodiram em londres.

Sunday, July 10, 2005

o cerco de stirling

de volta ao centro de convergencia rural em stirling -- por sinal, nao soh um excelente exemplo de autogestao que funcionou bem, como tambem muito bem organizado e num lugar absurdamente lindo, com um monumento a batalha de bannockburn e a robert the bruce, heroi nacional escoces, se erguendo na distancia, no topo de uma colina.

todo mundo fala com todo mundo, pergunta, quer saber, se diverte com o que pareceu o sucesso daquele dia, mesmo que nao tenha sido possivel realmente parar o g8. por um momento, parece que o g8 eh menos importante que ser mais espert@s que a policia, e isso nos fomos.

por volta de tres e quinze da madrugada, vinte e seis vans da policia de choque comecam a se juntar na rotula que leva ao acampamento. eh muito facil fechar o acampamento, porque ele soh tem uma entrada (ha um caminho por entre as arvores, mas a policia tambem fecha este). a apreensao eh grande; obviamente, eh bem viva a memoria do ataque a escola diaz em genova, quando no dia seguinte ao fim da cupula do g8 ativistas que estavam dormindo nessa escola foram espancad@s e pres@s por motivo nenhum a nao ser o de que a policia queria vinganca.

estou junto com m., que tem um sotaque irlandes que eu nunca tinha ouvido antes e me custa muito entender, e. e k., fazendo o trabalho de 'media response', que consiste basicamente em se comunicar a imprensa 'mainstream' e encontrar grupos ou individuos dentro da dissent! que se disponham a falar com ela. acho que essa experiencia foi definitivamente positiva, e uma grande solucao achada para o eterno problema de 'nao temos porta-vozes, por isso nao falamos com a midia; logo, a midia diz o que bem entende, e nao conseguimos ter nossa opiniao ouvida'; o grupo de 'media response' (tambem chamado 'counter-spin collective') nao sao os porta-vozes, mas simplemente os facilitadores do contato com a midia, para quem tiver interesse em faze-lo.

e. e k. foram dormir, e ficamos eu e m. ligando para varios contatos de imprensa para avisar o que estava acontecendo. embora a imprensa nao evite nada, e possa inclusive participar de um massacre e relata-lo como um feito heroico, naquele momento parecia uma jogada a se tentar: a presenca de cameras passaria um certo conforto de que nada absurdo acontecerah. alguns contatos respondem ao chamado, mas nao podem passar pela linha de policia.

depois de umas duas horas cercad@s pela policia, finalmente ficamos sabendo o que el@s querem. eh um alivio quando @s noss@s negociador@s recebem a noticia de que a policia pretende ficar ali ateh de manha, e qualquer pessoas que queira sair terah que se submeter a revista, dar seu nome e endereco e ter sua foto tirada. varias pessoas vao dormir, mas a essa altura, apesar do cansaco, nao vejo como posso ir me deitar. m., r. e eu discutimos a possibilidade de escrever uma declaracao para ser levada a assembleia do acampamento que acontecerah de manha. a ideia eh aproveitar a oportunidade e pedir que a assembleia conceda ao 'counterspin collective' um mandato para tirar essa declaracao, que teria de ser aprovada por consenso na assembleia para sair. m. escreve um texto, eu escrevo uma segunda versao. nisso, m. vai dormir, k. e a. acordam e dizem que nao querem que o texto seja apresentado em nome do 'counterspin collective', mas nao se opoe a ele ser apresentado como o texto de um individuo. digo que, individuo por individuo, qualquer um podia escrever qualquer coisa, a questao era aproveitar aquela situacao para dar uma resposta publica ao absurdo de policiamento que estavamos sofrendo naqueles dias, alem de aproveitar para falar que o dia anterior havia sido considerado um sucesso, e meter pau no g8. a discussao para por aih; as 8h30, desisto de argumentar. mais uma oportunidade perdida.

caminhando de volta ao portao, encontro p., canadense que mora em londres. sua companheira acaba de ligar para falar de explosoes que ocorreram no metro; por enquanto, a versao oficial eh que elas foram resultado de problemas nas instalacoes eletricas. as pessoas comecam a acordar, a noticia se espalha, mas a confirmacao soh chega dali a algumas horas, com novas informacoes: tavistock square, king's cross, aldgate, edgware road, liverpool street...

mais tarde naquele dia, sentado na praca em frente ao centro de convergencia em edimburgo, falando pelo telefone com uma amiga que mora perto de aldgate e liverpool street, e com outro amigo que mora junto com ela ao meu lado, me deu conta do que aconteceu pela primeira vez, de uma forma engracada. lembro que aldgate eh o meu lugar preferido no metro de londres, por causa da curva que o tunel faz em direcao a estacao de aldgate east, de onde se pode ver as luzes da plataforma de aldgate. penso que, da proxima vez que eu fizer essa curva, talvez para ir visitar esses mesm@s amig@s, a plataforma nao estarah lah.

mas a midia...

... famosa pelo seu senso de proporcao, continuou a linha que vinha seguindo desde o 'carnival of full employment'. na manchete, chamava aquilo de 'batalha', chamava @s envolvid@s de 'vandal@s', 'hooligans', 'vagabund@s'. no corpo do texto, fazia uma mencao que outra a comentarios de locais, dizendo que a policia estava provocando, atacando primeiro, sendo excessiva no uso de forca, ou a quantidade de policiais era simplesmente excessiva.

se ha um efeito positivo que o que aconteceu depois pode ter, eh justamente por as coisas em perspectiva.

por que foi tao facil?

o clima no pub, e de todo mundo que vc encontrava depois, era de euforia. os bloqueios tinham sido um sucesso, e a maior operacao militar da historia da escocia tinha fracassado miseravelmente na maior parte do dia, incapaz de entender o 'grande plano' de grupelhos de pessoas que se moviam daqui para lah e conseguiam seguir bloqueando as estradas. o sentimento era o mesmo daquele grafite no banheiro do forest cafe: 'the kids are fuckin' brilliant!'. sem nenhuma organizacao central (e justamente por causa disso), com pouco mais que apenas criatividade, cooperacao e nossos corpos, tinhamos posto 11 mil policiais a cocar a cabeca, sem conseguir entender o que passava.

jah a cerca eh mais discutivel. se foi um caso de incompetencia, foi incompetencia suficiente para que alguem fosse demitido no dia seguinte. dificil acreditar, embora alguns detalhes parecessem mais que encenacao (eles nao precisavam baixar dois chinooks com reforcos soh para fazer um showzinho para as camaras, precisavam?).

ao mesmo tempo, eh bom lembrar que varios planos de construcao de estradas na inglaterra jah foram cancelados porque se chegou a conclusao que seu policiamento sairia muito caro. talvez a ideia fosse criar um espetaculo que justificasse o tamanho da operacao. e realmente, em determinado momento parecia haver mais midia que manifestantes naquele campo.

ao mesmo tempo, se era esse o plano, me parece um plano um tanto estranho. serah que voce realmente prova que precisa de 11 mil policiais, cavalos, tropas de choque, helicopteros e cercas quando voce enfrenta umas 500 pessoas desarmadas num campo, que ainda assim conseguiram furar uma cerca e um cerco que custou tornar a vida da populacao daquela cidadezinha em uma base militar. quer dizer, na pior das hipoteses, a 'batalha de bannockburn' (como foi chamada pela midia no dia seguinte) foi empate; mas o resultado final daquele dia foi vitoria. para o nosso lado.

'the kids are fuckin' brilliant!'.

mal a gente sabia o que nos esperava.

cortando o arame!

com toda a confusao sobre a marcha sair ou nao sair, nao sei se era soh eu, mas parecia que ninguem sabia muito bem o que era para acontecer. comecamos a caminhar, e parecia que seria muito chato; j. propos que fossemos junto com a infernal noise brigade, que provavelmente seria a parte mais divertida. a infernal noise brigade eh a melhor banda do mundo para acoes de rua, e logo os clowns comecaram a marchar ao lado. parte da profecia se confirmou: aquela era a parte mais divertida ateh entao, mas a diversao mesmo estava por vir.

marchamos muito devagar por cerca de quarenta e cinco minutos por uma rua estreita. nas arvores e muros, mais policiais que passarinhos, varios deles com suas cameras com lentes enormes, tirando fotos furiosamente. bem-vindo ao reino unido; eh assim que se trata qualquer manifestacao politica aqui.

no fim da rua, a policia havia posto uma cerca, igual aquela em torno de gleneagles, e algumas pessoas estavam juntando ali, sem saber o que fazer, procurando alguem da organizacao que pudesse explicar o que estava acontecendo, ou encarando a policia e forcando a cerca. um organizador apontou uma saida a direita, uma rua onde parecia nao haver nada, e parecia nem ser parte do trajeto da marcha.

ainda muito paranoic@s, saimos por ali para evitar ficarmos parad@s naquele corredor polones de cameras da policia. fomos descendo a rua, sem entender nada; ninguem entendia nada, as pessoas olhavam para tras como se procurassem uma indicacao de se ainda havia marcha, e se a marcha vinha ou nao vinha atras del@s naquela direcao.

e foi descendo a rua que nos vimos a cerca.

a rua descia uma colina e dobrava a direita. a esquerda, perpendicular a rua, a cerca se estendia por um campo de centeio colina acima. a infernal noise brigade e @s clowns tinham saido na frente e, nao havendo nenhum poilicial para para-los naquele ponto, pularam a cerca que separava a rua do campo, e comecaram a subir a colina em direcao a zona vermelha. nem sei se dah para chamar de zona vermelha: nos literalmente caminhamos ateh em frente a cerca, sem oposicao nenhuma da policia. da rua, as pessoas olhavam, sem entender o que estava acontecendo, se aquilo ainda era marcha, porque a policia estava deixando aquilo acontecer, nada. subindo o morro, tambem nao entendiamos nada, molhando nossas calcas ateh quase a cintura no centeio molhado, seguindo primeiro com cautela, depois mais animados, e chegando confusos, mas sorridentes, a cerca.

a infernal noise brigade comecou a tocar, as pessoas ficaram ali, olhando e gritando para a minuscula linha de policiais do outro lado. ateh que aconteceu: um homem do congo, sobrevivente da guerra na regiao de darfur, pulou a primeira cerca e caminhou em direcao a segunda, carregando um caixao de papelao na cabeca. quando ele chegou a segunda cerca, sem ser parado, a primeira jah devia estar no chao, e as pessoas corriam para frente sem pensar. a linha de policia, que estava por tras da terceira cerca, avancou, mas nao era grande o suficiente para enfrentar aquel@s que vinham na direcao contraria.

em pouco tempo o cenario era de vietnam. a linha de cavalos e a policia de choque sairam de dentro da cerca, enquanto cerca de doze helicopteros voavam sobre o campo, e helicopteros chinook de duas helices baixavam reforcos policiais no hotel. quando a policia de choque avancou, as pessoas recuaram um pouco, e vari@s comecaram a gritar 'andem! nao corram!'. em pouco tempo houve uma carga na direcao contraria, e a policia recuou. a infernal noise brigade e @s clowns foram para um ponto mais alto na colina, onde a cerca estava completamente desprotegida. foi aih que os cavalos se moveram para o ponto mais alto, e em breve a policia, uma linha mais extensa de policia de choque ao fundo, e os cavalos colina baixo, comecaram a varrer o campo em direcao a rua. s., t. e eu comecamos a derrubar uma cerca por onde as pessoas teriam de passar. mas o jogo jah estava acabado a essa altura; completamente molhados, mas felizes, recuamos em direcao a rua, e tentamos parecer o menos conspicuos o possivel. tod@s trocaram de casaco com tod@s, alguns casacos acabaram em mochilas. nos misturamos as pessoas da marcha, que ainda olhava confusa enquanto a policia, depois de varrer o campo, se dirigia a rua; saimos rapido, olhando para os lados, mas a policia parecia incrivelmente desarticulada para fazer qualquer coisa. (depois fiquei sabendo que havia 'snatch teams' com fotos das pessoas que haviam estado em torno da cerca, procurando-as pelas ruas de auchterarder. um amigo foi pego assim, e teve que esperar horas ateh que a policia inglesa descobrisse qual a lei escocesa que el@s podiam aplicar. no fim, ele foi acusado de 'malicious mischief'; nao sei o que significa, mas soa como algo do tipo 'voce foi um menino muito, muito mau.')

meu plano de fuga foi simples: achei uns amigos, e fomos a um pub. chegar a zona vermelha nunca fora tao facil.

'the kids are fuckin' brilliant!'

pulo o dia 5, porque estava em glasgow, trancado em um apartamento, niveis de paranoia batendo no teto, montando a infoline para a qual as pessoas que estariam organizando os bloqueios no dia seguinte podiam ligar para ter informacao de como as coisas estavam correndo em outras partes. parece que foi bastante util na madrugada e na manha do dia 6; no tempo em que eu trabalhei nela (do meio-dia a meia-noite do dia 5) estava bem devagar.

depois de ter ironizado tanto a marcha organizada pelo g8 alternatives, conclui que a unica maneira de sair de glasgow e ir a um lugar onde haveria a chance de pelo menos acontecer alguma coisa era... pegar um onibus do 'g8 alternatives' e ir a gleneagles! achei que morreria de tedio, mas mal sabia eu.

o onibus parecia uma excursao escolar de trotskistas, preparados para aquilo que estava prometido: chegar lah, caminhar, gritar um pouco, entrar num onibus e voltar. acho que os seis de nos que tinham estado trabalhando na infoline na vespera, sentados no fundo do onibus, fazendo ligacoes e mais ligacoes telefonicas e escrevendo numeros de apoio legal nos bracos e nas pernas, nos destacavamos um pouco. mas a 'garotada' nao estava nem aih: rolava uma garrafa de tequila, logo uma de vodka, umas cervejas e sanduiches.

um dos objetivos das varias ligacoes era saber como estavam indo os bloqueios. foram ao todo 23 bloqueios, alguns muito bem-sucedidos: em edimburgo se conseguiu parar a delegacao japonesa que saia do sheraton por uma hora; em glasgow nao funcionou; a a9 e a m19 foram cortadas ao norte e ao sul de gleneagles, em dois casos por cerca de seis horas. no geral, foi um otimo exemplo de como a organizacao descentralizada eh a mais eficiente para essas coisas; nao havia um grande plano, mas varios grupos de afinidade de tamanhos maiores e menores, cada um indo para um lugar e com uma tatica diferente. talvez o que tenha feito falta tenha sido exatamente mais disso: alguns bloqueios consistiam simplesmente de pessoas sentadas e de bracos dados na estrada, o que eh o tipo de coisa que exige muita gente e eh muito facil para a policia de eliminar (dois jornais no dia seguinte tinham a cara de uma migo meu sendo arrastado por uma estrada). as coisas mais eficientes foram as menores, e tipicamente britanicas na tradicao de acao direta ecologica dos anos 80-90. o meu caso preferido foi o das quatro pessoas que pararam um carro atravessado na estrada, duas delas prendendo os bracos com uma trava de bicicleta por debaixo do carro, as outras duas se trancando no interior.

entre as pessoas do g8a que estavam organizando a marcha, duas ou tres delas por onibus, passando instrucoes e informacoes, o clima era um pouco mais tenso: uma queda-de-braco publica entre a policia e el@s se estendia desde a vespera, tendo chegado ao ponto de, naquela manha, a policia ter anunciado na bbc que a marcha estava cancelada. alem do mais, com varios bloqueios funcionando em varios lugares, e a policia mais que tonta tentando entender o que estava acontecendo, e geralmente se comportando de maneira idiota, organizando el@s mesm@s bloqueios na estrada, chegar a auchterarder -- cidade ao lado de gleneagles -- era uma aventura.

mas chegamos finalmente, e foi otimo ver a populacao -- praticamente toda acima dos quarenta e bastante endinheirada -- nas janelas e nos jardin, sorrindo e acenando seu apoio. nao eh a toa: transformaram a cidadezinha deles em uma base militar, no centro da maior operacao militar da historia da escocia. quem eh que gosta disso?

o tempo, como eu previra, estava horrivel. mas tudo estava apenas comecando.

atropelado pelos fatos

dias de dissenso

dado o meu fracasso completo em fazer uma cobertura jornalistica, e o fato de o g8 ter sido empurrado para fora da primeira pagina pelos atentados em londres, nao sei nem por onde comecar. vou tentar retomar de onde parei, e ver o que ha de interessante a dizer, se algo.

em tempo: provei o haggis anteontem. eh bom, mas nada que tenha transformado a minha vida.

'diaria' uma ova!

dias de dissenso

nao sei se ainda ha alguem acompanhando esse blog -- afinal de contas, ele nao foi atualizado durante os dias mais importantes (justamente porque esses eram os dias mais importantes!), apesar da promessa de cobertura 'diaria'. fazer blog nao eh bem assim.

fui atropelado pelos fatos; ontem ateh tive tempo, mas nao conseguia trabalhar.

Monday, July 04, 2005

ontem e hoje

dias de dissenso

ontem foi um dia basicamente de reunioes para mim, em especial acao global dos povos e (um pouquinho) a 'assembleia anti-autoritaria e libertaria' chamada pel@S wombles. sinceramente, desde os tempos de movimento estudantil nao achava uma assembleia tao pouco anti-autoritaria, e tudo me parecia opressivo: do codigo de vestimenta ateh as expressoes faciais quando alguem parecia 'sair da linha'. andrew gilligan, ex-jornalista da bbc que hoje escreve para um tabloide de londres, estava num canto, gordo, careca, seus quarenta anos, vestido de branco. obviamente, se destacava da paisagem como um camelo numa geleira. obviamente, era isso que ele queria. e obviamente, a reacao foi a esperada: xingado, empurrado, ameacado, ele saiu dali com um sorriso idiota no rosto e alguma coisa para escrever no jornal.

paciencia.

mas uma decisao importante foi tomada: nao concentrar todas as pessoas no centro de convergencia rural em stirling na vespera da abertura da conferencia, porque nos tornaria alvo facil. como eh pouco realista acreditar que serah possivel sair de edimburgo ou glasgow na direcao de glenagles na manha do dia 6 de manha (jah serah sorte se conseguirmos ir do centro de convergencia rural ateh gleneagles!), e como eh muito pouco realista acreditar que vai ser possivel furar a zona vermelha, a ideia eh cortar o transito de assessores, jornalistas e staff de apoio ateh lah. por isso, acoes em edimburgo e galsgow estao programadas.

de acordo. mas acabo de receber um telefonema do meu grupo de afinidade dizendo que a ideia eh ir a stirling agora.

por isso tambem nao vou poder contar do 'carnival for full enjoyment' hoje, que de todas as acoes foi a que sofreu o maior hype da policia e imprensa locais. nao houve maiores incidentes. a estrategia da policia britanica eh sempre acabar com as coisas antes que elas acontecam, e eles conseguiram cortar o carnaval em diferentes grupos, cercar aqui, fechar ali. eu estava no maior grupo, que fechou a rua principal (princes street) por cerca de duas horas e meia, ainda que a festa mesmo tenha durado cerca de uma hora. no resto do tempo, as pessoas se moveram em direcao ao parque -- e a policia pos o parque inteiro em 'section 60'. pobres turistas.

por outro lado, se o plano era ter uma street party, fechar varias ruas e incomodar por algumas horas, a acao foi um sucesso. gracas, alias, a policia -- que fechou o dobro de ruas pelo dobro de tempo, e incomodou muito mais.

para stirling, entao. tentarei mante-l@s informad@s.

e tomara que nao chova.


@s dez mais procurad@s

dias de dissenso

na reuniao de convergencia de edimburgo na vespera, a decisao que se tomou -- tipica! -- foi que, bom, nao ha bastante tempo nem suficiente informacao, sei lah, uhm... e nao se organizou, como era esperado, um bloco 'make capitalism history' para a marcha do mph. marcou-se um ponto de encontro, na praca entre o centro de convergencia e o forest cafe, para quem quisesse se organizar, quem sabe... ou seja, o de sempre.

cheegando na praca, dou de cara com el@s, @s terriveis, @s temid@s, aquilo de que a policia e a media vem falando para a pobre populacao escocesa indefesa ha meses: o 'black bloc'. cerca de quarenta, com o uniforme classico, bandeiras negras, capuz e mascara. passo bem perto: sinceramente, nao vi ninguem que parecesse maior de vinte anos. (embora sei que haja gente mais velha que tambem faz 'black bloc', como @s terriveis, @s temiveis wombles de londres).

o meu problema com o 'black bloc' sempre foi: nao sou por principio contra dano ao patrimonio (o mcdonald's da esquina estah segurado, de toda forma), mas acho que el@s varias vezes colocam a si mesm@s e a outr@s pessoas em risco sem pensar; e nao sou por principio contra o uso da forca, mas me parece que alguem definir a sua tatica politica como 'uso de forca' eh apelar para uma identidade, e nao para uma politica.

(se ha um bloqueio ou 'corte de ruta' e a policia ataca, e ha uma possibilidade boa de se defender e conseguir se segurar no local, apoio o uso de forca. em alguns casos -- digamos, uma comunidade ocupando um terreno que consegue por a policia em retirada -- essa eh uma experiencia que empodera e pode ajudar a construir. e nao tenho problema nenhum em ser bastante claro a respeito disso, porque a esquacao para mim eh muito simples. estado democratico de direito eh igual a monopolio do uso 'legitimo' (definido circularmente como 'aquele previsto na lei', mas que a lei soh preveja sua propria suspensao e o uso 'livre' de forca por pessoas de uniforme); desobediencia civil eh igual a um direito fundador da democracia, nao como instituicao politica (ou seja, como estado democratico de direito), mas como pratica politica de questionar nao essa ou aquela jogada, mas as proprias regras do jogo; logo, a desobediencia civil para mim se equivale ao estado de excecao: em ambos os casos, o recurso a forca nao-legitima estah sempre em aberto. 'ui', gemerao virgens liberais; i'm sorry, mas esse eh o fundamento tanto da democracia quanto da ditadura. nao estou dizendo que isso seja bom, porque isso nao eh um juizo de valor. nao estou falando normativamente, mas ontologicamente: nao estou dizendo 'deve ser', mas 'eh'.)

mas nao consigo deixar de pensar que aquela criancada vestida de preto nunca tinha parado para pensar nessas coisas; tod@s pareciam adorar o fato de que pareciam 'maus'. 'black bloc', vamos revisar, nao eh uma organizacao, mas uma tatica; voce nao eh 'do black bloc', mas vc 'faz black bloc'. mas ao mesmo tempo, sao as roupas, a atitude corporal, tende a certos gostos musicais etc. ora, nao ha aih, para mim, uma consideracao de conjunto, do tipo 'se estamos dispost@s a empregar forca fisica, de que maneira podemos servir aos objetivos de todas as pessoas que estao do nosso lado'? 'em que momento e contra que alvos essa forca eh melhor usada'?

nao que esses calculos nao sejam feitos quando as pessoas estao na rua; mas soh sao feitos na rua, tatica ao inves de estrategicamente. no geral, eh um samba de uma nota soh: vamos sair e quebrar umas vidracas de lojas de corporacoes. se voce senta para conversar com el@s porque fazer isso (jah fiz isso varias vezes com @s wombles), a resposta eh algo do tipo 'mas as pessoas sabem o que isso significa, elas nao acreditam na midia, elas sabem que isso eh parte da libertacao delas'.

isso me soa como a mesma burrice humanista do marxismo e do anarquismo classico: existe uma natureza humana que pode ser 'despertada' do seu sono capitalista. a diferenca eh que os marxistas se referem a natureza de um sujeito coletivo (o proletariado) que acorda lentamente ao longo da historia, numa combinacao obscura de circunstancia subjetivas e objetivas. jah os anarquistas se referem a uma natureza individual, que pode ser chacoalhada ateh acordar. francamente, acredito que o seculo dezenove, ao acabar, levou esse tipo de crendice com ele. a midia nao reprime o que as pessoas sabem, mas produz nas pessoas uma maneira de se relacionar com essas coisas. muita gente vai dizer 'eh isso aih!'. num pais de hooligans, tenho certeza que muitos jovens do seculo masculino acha o 'black bloc' com uma mensagem politica bem clara. outros ficam naquele outro samba de uma nota soh repetido desde seattle -- essa gente nao tem politica nenhuma, sao jovens inconformad@s que soh conseguem expressar sua frustracao assim etc.

mas como muita gente, eu tenho uma certa 'ternura' pelo 'black bloc'; me seinto meio tio mais velho. por isso fiquei feliz que, quando el@s decidiram nao participar da marcha da mph e sair por conta propria por aih -- e obviamente ao fazer isso, foram acompanhad@s por duas vezes mais 'robocops' (como se diz 'riot police' em portugues?) --, o rhythms of resistance (samba banda de londres) e o exercito de palhacos decidiram acompanha-los para oferecer protecao. eles foram postos em 'section 60' rapidamente, e @s clowns quebraram um tanto da tensao enquanto @s 'black bloc' eram liberad@s pouco a pouco, algumas pedras foram atiradas, uma ou duas vidracas quebradas.

foi interessante em particular por causa d@s clowns; a 'identidade' 'black bloc' seria normalmente a primeira a desprezar o circa (exercito clandestino insurgente de palhac@s rebeldes) como muito hippy, ou soh querendo midia. el@s mostraram anteontem uma capacidade de pensar no conjunto que me pareceu excelente, e muit@s 'black bloc' hoje jah falavam 'eh, nao, tah legal, tem que respeitar @S clowns'.

'this is fucking nuremberg'

dias de dissenso

mas 'make poverty history' nao foi o pior. a tarde encontrei p., que ha dois anos passa metade do seu tempo no iraque, parando na frente de tanques e coisa do genero. fomos tomar uma cerveja e, infelizmente, o pub estava transmitindo o 'live8', a nova presepada de sir bobby geldof e sao bono vox para, erm, salvar o mundo.

p. comecou a chorar de raiva no momento em que, depois daquelas imagens classicas de criancas morrendo de fome, sir bobby apresentou a menina que foi salva gracas ao 'live aid' nos anos 80, que hoje eh linda e bem-alimentada. para em seguida chegar a madonna, dar um beijo na mesma menina, e cantar 'like a prayer'.

a camera abriu do palco em direcao a plateia, mostrando um mar de cabecas assistindo aquilo. o que pode ser melhor do que isso? ir a um megashow de graca, encher a cara e ainda salvar o mundo?

'this is fucking nuremberg' -- p. estava gritando a esta altura. 'eh obvio que isso eh de proposito. eles estao legitimando o g8, estao recuperando o blair de todo o impacto negativo da guerra no iraque, preparando a sucessao para o gordon brown, e repartindo a africa entre eles de novo. cada pais africano perde em barreiras tarifarias em um ano o equivalente a todo o auxilo que eles estao ofercendo. isso eh nojento.' ela gritava de raiva, por puro instinto, mas tambem tentava ser ouvida pelas pessoas ali no pub, potenciais alvos para aquele filme de leni riefenstahl em versao videoclipe que passava no telao.

sai dali triste. nao parei na street party em frente ao forest cafe, e atravessei a cidade a peh pela octogesima vez para ir tentar trabalhar no escritorio.

(como vcs podem imaginar pelo silencio dos ultimos dias, nao consegui. a internet tinha caido. bloody typical.)

'make politics history'

dias de dissenso

sabado foi o dia da marcha do 'make poverty history'. mesmo considerada conceitualmente -- milhares de pessoas brancas, vestidas de branco, andando em circulos por quatro horas com faixas do tipo 'mais e melhor auxilio financeiro para a africa' -- eh porvavelmente uma das coisas mais aborrecidas de que jah ouvi falar. a verdade foi mais chata que isso.

foi uma coisa do tipo 'a classe media vai a politica'. eh dificil resistir a tentacaoi de ser cinic@; essas coisas sempre tem um efeito positivo, mesmo que seja soh marginal, de politizar pessoas, faze-las pensar sobre certas questoes e, quem sabe, se envolverem com algo menos raso no futuro. mas o problema eh que, vista da onde estou, ela tem um subtexto desagradabilissimo: quando ninguem pensava que algo mais pudesse acontecer, seattle deixou claro que muita gente no mundo nao estava satisfeita com a possibilidade de ser governada per omnia seculo seculorum por instituicoes internacionais sem nenhum grau de 'accountability' e cuja funcao eh basicamente avancar as agendas de grandes interesses industriais, comercias e financeiros, em detrimento de qualquer coisa que se ponha no caminho. o 'summit protest movement' (o nome como alguns chamam @s 'no global', e eu gostaria de ter tempo de voltar a esse ponto) serviu para abrir um processo de deslegitimacao dessa gente. eh classica a declaracao de um assessor da omc em praga, que disse: 'essa gente tem um dominio das questoes em jogo que eh maior que o nosso'.

9/11 foi um contra-ataque, que usou a questao terrorista para radicalizar a agenda neoliberal, mover pecas no tabuleiro da geopolitica (bases americanas por todo o oriente medio e asia central -- alguma relacao com o fato de que as reservas de petroleo do mundo estao chegando ao limite? ou com o fato de que a china estah rapidamente se transformando no maior consumidor mundial de petroleo?) e 'flexibilizar' as liberdades individuais de tal forma que qualquer movimento politico fica infinitamente mais dificil.

e agora vem 'make poverty history' dizer: por favor, sr. g8, please, please, please, facam da pobreza historia.

aih se desenha uma linha bem clara. estou aqui para fechar a cupula, nao para fazer 'lobby', porque eles sao por definicao nao-'lobbyaveis': uma instituicao ilegitima. t. ontem resumiu: 'nao estou aqui para fazer lobby junto ao g8, mas para fazer lobby junto ao mundo.' enough said.

e a marcha foi CHATA como nunca tinha visto.

o retorno da paranoia

a paranoia aumentou nos ultimos dias, na medida em que chegava mais gente. eh dificil saber numeros exatos, porque eh tudo muito descentralizado e as pessoas estao se movendo todo tempo. ouvi falar em 4 mil em stirling, mil em glasgow, 4 mil em edimburgo, mas isso foi ha dois dias e com certeza estah desatualizado.

verdade seja dita: a paranoia eh paralisante e terrivel, mas tambem eh divertida. o que nao eh necessariamente bom, mas, de novo, eh divertido. na sexta a tarde, participei da operacao militar para receber os jornais (com a programacao das acoes, mapas, enderecos, numeros de telefone) e distribui-los rapidamente em diferentes direcoes. achei tudo bastante desnecessario, e tive uma conversa engracadissima com o motorista de taxi que me levou do armazem ao infopoint e ao escritorio -- e eu peguei a rota mais 'perigosa', jah que o infopoint tinha sido visitado pela policia uma hora antes! mas dah aquela sensacao de 'acao' e 'importancia', aquele 'complexo de baader-meinhof' que te deixa feliz. e quando eu disse que achava tudo meio exagerado, s., com anos de reclaim the streets! nas costas, me contou de quando a policia apreendeu todos os 5 mil flyers que eles tinham preparado para acao.

esse eh o jogo todo. voce ve claramente que algumas pessoas adoram o status de 'dez mais procurados', a fama de serem @s anarquist@s mais perigos@s do pais. e ao mesmo tempo voce morre de medo. esse eh o espirito do panopticon: por mais que voce racionalize que eh matematicamente impossivel existir tanta gente para processar toda a informacao -- cameras de vigilancia, cameras da policia, infiltracao em reunioes etc. -- o que fica no fundo da sua cabeca eh que toda essa informacao eh potencialmente utilizavel -- e eh o <span style="font-style:italic;">potencialmente que paralisa.

fuckin' hell!

dias de dissenso

calma, calma, estou aqui!

ainda naqo comi haggis, nem fui preso. o empate eh bom resultado.

Thursday, June 30, 2005

apicius!

dias de dissenso

jah que o nivel jah descambou um pouco, aviso: nao perca amanha, quando realmente me transformarei no apicius. vou experimentar o famigerado 'haggis', o prato nacional da escocia.

'chattering classes' versus 'working class'

dias de dissenso

a primeira coisa eh que a diferenca entre 'working class' e o resto -- que nao tem um nome definido -- eh percebida como acima de tudo cultural. ser 'working class' inclui habitos alimentares (fish, chips, brown sauce, cerveja); eh um tipo de moradia (aquelas casinhas geminadas muito sem graca, ou os 'council estates' nas cidades maiores); eh um sotaque (e um ingles eh capaz de descobrir ateh o q vc almocou soh pelo seu sotaque). evidentemente, em qualquer pais seria possivel tracar um perfil assim; as diferencas me parecem duas. lembro quando era crianca de ver em um programa uma dona-de-casa de classe media baixa dizer que sonhava em ter um 'cafe da manha de rico de novela'. aqui, ao inves de os valores nao-'working class' representarem um padrao de desejo, eles significam tudo de desprezivel: ric@s sao pretensios@s, fresc@s, metid@s a besta. e, por extensao, as diferencas se dao mais no plano de uma pratica cultural objetiva que, por exemplo, pela presenca ou ausencia de dinheiro. e com isso, ve-se muita gente que teve educacao de primeira linha, mora bem etc. afetando um sotaque 'working class', e apesar do seu doutorado na parede, manifestando um sentimento forte (e ele eh, por essas razoes, fortissimo aqui) de anti-intelectualismo.

nao existe um substantivo que seja o oposto de 'working class' entendido nesse sentido; dah para contrastar melhor, talvez, com o adjetivo 'posh'. mas ha uma expressao que eu adoro, e que resume exatamente essa distincao cultural: 'the chattering classes'. literalmente, 'as classes que falam' (ou talvez mais especificamente, 'que batem trela'). eh uma expressao que a classe media e alta usa, com uma pontada de culpa, mas bastante auto-complacencia, para se referir a si. ora, dividir o mundo entre '@s que falam' (quer dizer, os que tem tempo para e prazer em se sentar, trocar ideias, beber uma coisinha...) e '@s outr@s, eh um exemplo perfeito disso a que me refiro.

(ha uma outra expressao que adoro, 'champagne socialist', que eh um equivalente inexato do nosso 'esquerda festiva'. nao sei a origem do termo com certeza, mas suspeito que tenha comecado como uma forma de aristocratas se referirem a aristocratas que apoiavam o partido trabalhista no inicio do seculo xx. sim, o partido trabalhista usa a palavra 'socialista' ateh hoje. o que prova que nome nao significa mesmo nada.)

alem de ter um peh atras fortissimo contra o 'terceiro-mundismo', tambem sou contra o mesmo romantismo aplicado '@s trabalhador@s', como um grupo homogeneo dotado de um acesso preferencial a verdade mais pura do universo. em outras palavras, sou contra qualquer transformacao de categorias necessariamente dinamicas em essencias. e aqui, como em qualquer outra parte, ha gente que invoca para si um espaco politico pelo fato de ser mais 'working class' que @s outr@s.

as diferencas nesse caso sao duas. uma, como essa distincao se dah num nivel cultural, com isso vem a romantizacao de valores que sao bastante contestavel. os grupos que se declaram ou se acreditam mais 'working class' sao eminentemente masculinos e machistas, fortemente anti-intelectuais, dogmaticos, muitas vezes intimidadores e puco respeitosos em relacao a diferencas. (isso nao quer dizer que 'os classe media' sejam automaticamente flexiveis, sensiveis etc.; estou soh mostrando as linhas culturais onde se marca a diferenca.)

alem disso, normalmente @s mais 'working class' sao @s que moram em um squat, vao a feira na hora 'xepa' etc. ou seja, levam uma vida que eh bastante diversa da maioria da 'working class' desse pais; o que vale dizer, essa identificacao cultural nao @s faz mais capazes de dialogar ou de negociar diferencas com as pessoas de quem el@s se acham mais proxim@s. pelo contrario, esse pefil cultural pode se exarcebar numa especie de politica identitaria em que, se vc nao eh exatamente igual a el@s, voce nao eh bem-vindo. (a nao ser que voce possa ser romantizado; mas aih provavelmente seria voce que se sentiria estranh@ no meio del@s). ou seja, nao acrescenta nada a politica del@s, mas pode atrapalhar um bocado.

aih voltamos aquelas questoes do ultimo post. e vou tentar achar uma sintese da minha opiniao.

esse papo de 'no global eh um fenomeno classe media'. vah lah; nao ha de ser a primeira nem a ultima vez, nao eh? nao vejo nada de errado nisso, e acho muito importante estar consciente disso. eh preciso estar consciente justamente para aprender a lidar com essas diferencas -- e jah vi muito 'no global' se comportar de forma absolutamente lamentavel com pessoas de diferentes niveis socio-culturais justamente por ser capaz de enxergar o mundo soh pelos seus olhos, e nao conseguir por um momento se imaginar visto de fora.

mas isso nao significa que estejamos nisso 'por alguem'. nao ha esse 'outro', esse sujeito constituido cujo lugar estamos ocupando porque temos as ferramentas certas agora, mas que quando chegar a hora serah 'a verdade'. alias, nao vai nem 'chegar a hora': a hora eh agora, e eu resisto do lugar de onde estou. ninguem tem melhores condicoes de resistir onde eu estou do que eu, assim como a pessoa que estah a meu lado, seja quem for, sabe melhor do que eu como as coisas estao ali. a questao toda estah nas conexoes. e para fazer conexoes, eh preciso saber negociar as diferencas. e para negociar as diferencas, e preciso acreditar que a diferenca eh anterior a identidade. nem eu nem a pessoa ao lado somos 'o padrao' do qual o outro desvia -- somos diferentes em termos absolutos, e precisamos nos (re)conhecer a partir disso.

ateh aqui, muita coisa poderia ter saido do 'manual do guerrilheiro "no global"' (ou de um texto do deleuze, o que talvez nao seja tao diferente). mas nao dah para fazer esse exemplo -- eu e a pessoa do meu lado -- estender para tudo. uma das coisas que muito 'no global' esquece eh que nem todo mundo eh um voluntario do indymedia numa sala de computadores. o fato de a tecnologia poder nos transformar em monadas assim, em termos absolutos, nao muda o fato de que politica ainda se faz, num sentido muito basico, com corpos e 'massa'.

alias, eh por isso que a gente estah aqui em edimburgo.

os ultimos paragrafos comecaram a ficar incrivelmente vagos. chegou a z. aqui e me convidou para uma cerveja. acho que estah na hora. (alias, em meia hora tenho uma outra reuniao.)

e para quem estava se perguntando enquanto eu insistia no exemplo: uma das loiras lindas continua aqui.

continuando o contexto

dias de dissenso

tive de interromper aquela conversa sobre contexto devido a viagem. queria chegar a um outro ponto (depois da paranoia), que na verdade pode valer para qualquer parte. mas como eh aqui que estamos -- bom, na verdade estamos no pais ao lado, mas ateh agora a maioria das pessoas que encontrei vem do sul da muralha de adriano --, uso o caso da inglaterra.

de volta aquele papo de 'movimento anti-globalizacao' (deixando claro que o nome eh ruim, assim como quase todos os outros propostos ateh agora sao). uma coisa que eu sempre achei estranho em colocar tudo sobre o guarda-chuva 'movimento dos movimentos' era o fato de que a maioria dos movimentos que podem ser incluidos aih existem desde antes de existir esse rotulo. o que mudou, entao? simplesmente o fato de outros movimentos, mais recentes, criarem o rotulo?

eh uma resposta que sempre temi um pouco. primeiro, porque parece uma jogada a la duchamp: isso antes era um urinol, mas agora se chama 'fonte' -- o que pode ateh valer para arte, mas provavelmente nao muda nada em termos de politica. podemos chamar um punhado de movimentos espalhados pelo mundo de 'movimento global' -- esse titulo, a nao ser que exista mais por baixo dele que soh uma miriade de movimentos, nao passa de um tigre de papel. (e aih, claro, a pergunta: existe mesmo mais que isso sob esse titulo? quero acreditar que sim; mas querer, a xuxa que me desculpe, nao eh poder.)

o segundo motivo para temer a resposta eh que o titulo se origina do fato novo em materia de politica que foi seattle. e em seattle, claro, nao estavam 'os movimentos do mundo', mas sim alguns movimentos do norte global, que de forma geral diferem muito em perfil de outros no sul global. nesse sentido, o nome seria uma reacao da midia do norte a movimentos do norte; que teria sido entao adotado por movimentos do norte, para se referir a movimentos do mundo.

e realmente, tenho a impressao que, via de regra, quando a midia se refere aos 'no global' (como chamam @s italian@s), estah pensando em gente de dreadlock que protesta na porta de reunioes de cupula.

o que levanta questoes sem fim, que sao muito dificeis de tratar porque eh impossivel falar a respeito sem fazer varias generalizacoes grosseiras. de acordo com a generalizacao mais grosseira, @s 'no global' nao passam de um bando de filhinho de papai que, ao inves de arranjar um emprego, mora em squats e a cada tanto protesta contra algo (como a omc ou o g8) que na verdade nao faz mal nenhum a el@s, mas estah matando pessoas em outros lugares.

jah discuti num outro post como ainda existe um resquicio forte de 'terceiro-mundismo' no movimento ingles e em geral (os que mais escapam desse vicio sao, acredito, @s italian@s): uma crenca um tanto romantica num bom selvagem que luta contra o capitalismo.

mas a generalizacao do penultimo paragrafo ainda assim eh grosseira, porque ignora varias coisas. por exemplo, trata da europa como esse paraiso social-democrata que qualquer pessoa que le jornais sabe que estah morrendo desde a decada de 80. obvio, um social-democracia desmantelada na europa ainda eh em geral melhor que qualquer coisa que jah tivemos no brasil. mas isso nao transforma todo mundo automaticamente em filhinho de papai.

acho que o momento historico e o perfil etario do fenomeno 'no global' eh a prova clara disso. nao eh simplesmente porque todo mundo tinha a vida ganha e resolveu protestar; essas pessoas sao a primeira geracao desde a segunda guerra que podia esperar, com bastante certeza, ter uma vida pior que a dos seus pais. isso nao soh mexe com aquilo que culturalmente as pessoas acreditavam serem seus direitos; tambem quebra o pacto essencial da social-democracia, que o casamento entre capital e trabalho -- a ideia de que mais produtividade eh a melhor coisa para os trabalhadores, porque quanto mais ganha o patrao, mais vantagens ganha o trabalhador. (o negri analisa isso muito bem em 'crisi dello stato-piano'. nao sei se foi traduzido para o portugues, mas existe uma traducao em espanhol numa coletanea publica por 'el cielo por asalto'.)

ou seja, a partir de um momento fica claro que o cenario estah armado para, cada vez mais, alguns ganharem muito e outros ganharem, se nao pouco, menos. acho que essa eh a explicacao sociologica d@s 'no global'.

obvio que isso nao vai provocar revolta generalizada num pais como a inglaterra, porque um pobre aqui ainda leva uma vida infinitamente melhor e mais segura que aquilo que chamamos 'pobre' no brasil. nao eh como se o cara um dia acordasse embaixo da ponte.

alem da diferenca em termos de nivel de vida entre 'pobres' daqui e daih, ha a questao daquilo que eu chamo 'riqueza social' (nao tenho certeza se esse eh o termo tecnico em portugues; em ingles, 'social wealth'.) toda sociedade produz um excesso de riqueza que simplesmente 'sobra': a comida que vai fora ao fim da feira, as casas que ficam vazias esperando a especulacao imobiliaria, ... e claro, quanto mais rica uma sociedade, maior eh essa sobra: computadores e eletrodomesticos que funcionam jogados fora etc. no 'terceiro mundo', quem se apropria dessa riqueza? os exemplos no brasil seriam o mst, os movimentos de luta pela moradia etc. -- grupos na linha de pobreza para quem esse ato de apropriacao eh questao de sobrevivencia. a riqueza social produzida por uma sociedade de abundancia eh o suficiente para manter bastante gente em condicoes bastante razoaveis -- mas nao existem esses grupos aqui, simplesmente porque nao existe esse nivel de pobreza.

quem se apropria dessa riqueza aqui? @s mais pobres, @s 'precarios', @s desempregad@s -- por circunstancia ou opcao. quer dizer, se formos nos referir a essas pessoas como 'filhinhos de papai', talvez soh seria justo se acrescentassemos o qualificativo: 'do mundo'. eh claro que esse excesso de riqueza estah aih para ser apropriado porque os 'dinheirodutos' mais grossos do mundo jorram nessa direcao. mas ao analisar as relacoes sociais aqui, nao adianta transplantar os habitos que o olhar desenvolveu no brasil; eh preciso julga-las em seus proprios termos.

(quer dizer, se voce entrar nessa sala agora, vai me ver com duas meninas loiras -- e lindas -- sentad@s em frente ao computador, escrevendo em uma lingua que nao eh a nossa. lind@, loir@, computador, lingua estrangeira: isso eh sinal quase incotestavel de riqueza no brasil. aqui nao eh.)

mas eh claro que ha diferencas sociais entre as pessoas que estao aqui. nao sao tao abissais como no brasil -- nao ha o cara que nao sabe escrever e o cara com doutorado -- mas existem. e nao sei como isso se dah em outros paises, mas a maneira como elas se manifestam na inglaterra eh interessantissima.


ha apenas um dia e jah cansado

dias de dissenso

dormir no escritorio tudo bem; o problema eh que dormi embaixo da pia. com um cartaz ao lado dizendo: 'nao deixe alimentos largados; ha ratos por aqui.' mas no estado em que eu estava, os ratos podem muito bem ter passeado pelo meu rosto que eu nao senti nada.

hoje abriu o espaco de convergencia que vai funcionar ateh o dia 7, com oficinas, debates, filmes e reunioes. foi otimo ter conseguido esse espaco, que pertence ao diretorio de estudantes da universidade de edimburgo. mas eh hilario estar usando-o: o predio eh um palacete neogotico do seculo 19, e eh certamente o primeiro centro de convergencia da historia com uma giagantesca cabeca de alce empalhada na parede. (o lado menos engracado eh que ha um cafeh de uma rede americana no predio; mas fazer o que? cavalo dado...)

a primeira reuniao foi as 10h da manha, a ultima comeca as 10h da noite. principalmente questoes administrativas do espaco e de relacao com a imprensa. estou esperando alguem na italia me mandar um sinal dizendo que eu nao vou precisar traduzir press releases para o italiano. por enquanto, nada.

hoje jah comecou aquela coisa, que eh uma das partes boas de participar de lago assim: @s amig@s que voce nao ve ha tempos, chegando da suecia, da espanha (via america latina), do estados unidos. mas por enquanto todas as questoes adiminstrativas e as reunioes (tanto a facilitacao quanto a discussao mesmo) ainda estao completamente dominadas pelos ingleses. normalmente, essa eh a queixa que toda a europa sempre faz: como a lingua basica eh o ingles, e el@s falam muito, @s ingleses sempre acabam dominando.

mas, claro, a situacao aqui eh diferente, e estah todo mundo bastante feliz que tenha havido gente que estava vivendo aqui ha meses para que as coisas estejam minimamente organizadas. o espaco do indymedia, por exemplo, onde estou agora, estah otimo; fica em cima de um cafe (estilo coffe shop holandes) chamado 'forest cafe', que eh mantido por uma cooperativa de artistas daqui de edimburgo. o predio eh lindo, e el@s nao pagam quase nada por ele -- conheci o proprietario, um respeitavel senhor de barba e terno, que parece adorar o que acontece aqui. eh um espaco amplo, com comida e cerveja organica (muito boas ambas) e cafe (ainda nao provei); o unico problema eh o servico, que eh... um pouco confuso. mas compensa em simpatia.

por outro lado, a situacao da acomodacao eh Crise, com C maiusculo, a ponto de ateh o meu lugar embaixo da pia estar ameacado. a prefeitura de edimburgo parece ainda nao ter entendido o que vai acontecer, e ateh hoje de manha continuava a queda de braco para que eles cedessem um espaco para as pessoas acamparem. cederam no fim; mas eh um espaco administrado por eles, com cameras de vigilancia em todo a area (bem-vind@s ao reino unido). obviamente, ninguem estah feliz com isso, e o problema eh que hoje o movimento ainda estah fraco -- amanha imagino que a crise chegue a cinco letras maiusculas.

(ah, sim, esqueci de comentar: chove permanentemente desde que cheguei. logo, ainda sou mais minha pia que esse acampamento. tambem jah me candidatei ao programa 'adote um ativista' que o pessoal responsavel pelo infoponto estah organizando.)

Wednesday, June 29, 2005

em edimburgo

dias de dissenso

no caminho, me dei conta de que estava escrevendo o nome da cidade errado (em portugues, quer dizer). cheguei as 15h30, dei uma volta rapida, parei para comer algo antes de dar de cara com k., que me explicou o caminho ateh o escritorio da dissent!.

edimburgo eh interessante. cinza, no bom sentido: de granito. a parte alta, onde fica o castelo, eh uma coisa meio gotham city. a estacao fica bem no meio, numa especie de vale que fica entre a parte alta e a nao-tao-alta. mas eh interessante: tem um clima de cidade do interior.

estranho a pouca quantidade de gente (digo, cabeludos com sacos de dorimir) e policia nas ruas. acho q a loucura comeca mesmo amanha a noite, quando deve chegar a primeira grande leva.

chego no escritorio, saio com k. e k. para tomar uma cerveja e me atualizar. voltando, caio em duas reunioes seguidas, e reencontro b., s., 'dissenters' de primeira hora. fico feliz de ver que o nivel de paranoia estah bastante baixo. todo mundo jah eh meio veterano, parece escaldado.

o problema eh que, depois de duas reunioes, sobra uma quantidade enorme de trabalho para fazer. acabo de resumir todos os press releases que sairam nos ultimos dias em um soh para mandar a traducao. e isso que eu dormi duas horas essa noite.

e minha casa, hoje a noite, serah o escritorio mesmo. eu e mais umas dez pessoas. por isso, peco vossa licenca: vou ali escovar os dentes, desligar o dub que estah tocando, e estender o saco de dormir. amanho tenho reuniao das 10h as 16h, depois quero ver se encontro j., que nao vejo desde janeiro. e depois escrevo mais.

ateh edinburgo

dias de dissenso

antes de por a mochila nas costas, duas coisas: a) comece a ler de baixo para cima; b) prometo que chegando na escocia, vai ser menos generalidade e mais informacao.

boa viagem para mim.

mais contexto -- vigilancia e paranoia

dias de dissenso

duas (bom, mais) coisas ficaram faltando nessa minha tentativa de apresentar um pouco da historia recente e dos impasses atuais do movimento ingles. e sao pontos importantes, porque dizem respeito a muito mais que (apenas) isso.

primeiro ponto: vigilancia e paranoia. as pessoas aqui, e em londres em particular, sao inteiramente paranoicas. tenho uma amiga que insiste que a policia tem como nos ouvir se nos estivermos conversando numa sala que tenha um telefone -- no gancho. para falar disso, podemos retornar ao rts!. com o 'carnaval' em 1998, o rts! chegou ao auge de seu impacto -- organizar um carnaval para uma multidao, num dia de semana, num dos maiores centros financeiros do mundo, foi um tapa na cara de muita gente. e obvio, depois do tapa, veio o revide. alguns foram levad@s a justica, isolad@s como 'organizador@s'; outr@s receberam telefonemas, ameacas, visitas estranhas, ofertas para passarem informacao.

mais do que isso, o 'carnaval' viu se destacar uma faceta ateh entao pouco importante nas acoes do rts! -- o uso de forca fisica contra patrimonio. sem entrar nos meritos agora (com certeza depois), isso rendeu municao para midia e policia isolaram o rts! como perigos@s anarquistas, baderneir@s etc.; e identifica-lo como uma organizacao (o que era, paradoxal que seja, contra seus principios organizativos) e eum grupo se individuos como seus lideres. finalmente, em primeiro de maio de 2001, depois de uma campanha macica da policia, midia e prefeito ('ken, o vermelho', o prefeito 'socialista' de londres) -- e com o crescimento da ala 'black bloc' entre @s participantes -- o rts! tornou-se inviavel, tanto publicamente, quanto individualmente para @s envolvid@s.

mais que isso, medidas legais foram tomadas mudando os poderes da policia em protestos -- entre outras coisas, a introducao da 'secao 60', que signfica basicamente: a qualquer momento, a policia pode declarar um grupo sob 'secao 60' e cerca-lo, ficando vedado a quem estah dentro sair, e ficando sob discricao da policia o que acontece ali dentro.

imagino que antes de 9/11, lidar com 'anarquistas' era a coisa mais importante que eles tinham para fazer; e como o esperado ataque terrorista a londres ainda nao se materializou, a policia ainda dedica uma quantidade de atencao absurda a qualquer atividade politica que eles possam associar com 'anarquismo' e 'baderna'. para fazer uma comparacao com o brasil, pode-se dizer: em termos absolutos, eles dedicam uma atencao igual a que no brasil se dedica ao mst; com a diferenca q o mst, em termos relativos, eh muito maior e tem muito mais peso.

qualquer acao ou protesto com trinta pessoas, vai ter no minimo o dobro de policiais. quinze pessoas batucando? vai ter um helicoptero sobrevoando. mas o pior nao eh isso: voce chega num 'squat' para urrma reuniao importante, e vai haver uma equipe plantada na porta, com uma camera imensa, registrando todos os movimentos.

nao eh soh, claro. nada poderia ter sido melhor que 9/11; alem de fornecer desculpas para praticamente qualquer coisa em termos de politica externa, tambem oferece o recurso ao medo que justifica absurdos no plano interno. eh perturbadora a quantidade de vigilancia (ostensiva!) aqui; londres eh a lider mundial em cameras de vigilancia, e cada vez se isola mais na lideranca; o governo luta para implantar carteiras de identidade biometricas (num pais, lembre-se, em que ateh hoje ninguem eh obrigado a apresentar nenhuma forma de identificacao); e logo ali no sudoeste de londres, a prisao de belmarsh eh um limbo juridico do nivel de guantanamo.

bom, estou soando paranoico. a questao eh: nessa situacao, a paranoia parece cada vez mais justificada -- seja porque a paranoia se confirme nela mesma, seja porque esse pais parece, de fato, caminhar a passos largos para um estado policial. eh ironico, mas parece que hoje em dia, para ver as possibilidades mais tenebrosas que o futuro oferece, ao inves de olhar para a periferia, deve-se olhar para o centro: inglaterra e estados unidos se assemelham cada vez mais a ditaduras em germe, onde as formalidades eleitorais podem ateh se manter, mas nao farao diferenca. duas fortalezas que se garantem em seu isolamento atraves de um jogo geopolitico de forca bruta, e que asseguram sua estabilidade interna por vias, ahem, nada ortodoxas.

(bom, do ponto de vista juridico, nao eh oculto de ninguem: estamos vivendo desde 2001 sob estado de emergencia declarado pelas duas maiores potencias militares do ocidente. estado de emergencia declarado. estado de excecao. parece paranoia?)

mas o ponto a que eu queria chegar eh: ao mesmo tempo, nada pode ser mais paralisador em politica que a paranoia. se voce nao pode confiar em ninguem, se voce nao sabe se aquela pessoa que vem fazer perguntas eh uma dona-de-casa ou uma informante da policia, que diabo de politica voce pode fazer?

pior, cada vez mais se exige uma certa 'militarizacao', no sentido que a circulacao de informacao fica restrita, algumas poucas pessoas decidem a respeito das acoes a serem feitas... o que, obvio, retro-alimenta a formacao de hierarquias, individuos que possam ser identificados como lideres. o que eh duplamente ruim: porque vai contra um principio organizativo clarissimo -- a horizontalidade -- e porque, ao separar uma cabeca de um corpo, torna a cabeca mais facil de cortar.

mas agora eu tenho que ir, entao ficam dois outros pontos para depois.

Tuesday, June 28, 2005

contexto II

dias de dissenso

('contexto II' porque o post anterior era 'contexto I'. soh agora me dei conta q posso dar titulo aos posts. prometo que melhoro.)

romantizando um tanto, foram @s ingles@s que inventaram essa historia de 'movimento global'. para quem nao sabe a que me refiro, estou falando do 'movimento', o 'movimento dos movimentos', aquilo que era chamado no inicio (e soh continua chamando quem eh ou mal-informado ou mal-intencionado) 'movimento anti-globalizacao'. uma historinha rapida e uma tentativa de definicao, entao, e depois eu volto @s ingles@s.

obvio, varios movimentos jah estao aih, nessa forma em que os conhecemos, desde muito antes. o que eh o fato novo? o fato novo eh o pos-muro de berlim e a 'pax romana' que se segue. (estava lendo um texto de um jornalista americano outro dia que mostrava como o plano se seguranca de bush junior vem -- literalmente -- sendo escrito desde o governo de bush senior, pelos mesmos cheney, powell, rumsfeld, wolfowitz e quejandos. para procurar: david armstrong, 'drafting a plan for global dominance'.) o triunfalismo neoliberal, o 'nao ha alternativa', e o processo que todos conhecem: os planos de ajuste estrutural, as privatizacoes, a finaceirizacao. para quem acreditou no triunfalismo, o levante zapatista em 1994 foi um relampago em ceu azul. para tod@s @s outr@s, foi um sopro de esperanca. em 1996 acontece o primeiro encontro contra o liberalismo e pela humanidade em chiapas; o segundo em 1997 na espanha; e desse processo de articulacao internacional surge a acao global dos povos, em 1998. e aih seattle, praga... e soh entao o forum social mundial. o que seria esse 'movimento dos movimentos', entao? muitos dos movimentos que o compoem seguem onde sempre estiveram, atuando onde estao, muitos inclusive tendo como referencia principal e limite imediato o estado-nacao onde estao; o 'movimento' entao nao se define tanto por uma acao global conjunta, mas por um esforco de articulacao de acoes locais, e um reconhecimento -- implicito ou explicito -- de que o jogo mudou. nao estamos mais falando de fazer as reformas necessarias nesse ou naquele pais (embora se possa, tambem, falar disso). se vc puxar uma ponta aqui, vai sair lah do outro lado. acabou de vez a ilusao de que o problema eh nacional: 'o' problema eh global, ou nao eh 'o' problema.

mas fecha parentese.

por que entao eu estava dando esse credito todo @s ingles@s? porque el@s (como sempre -- vide beatles) estiveram entre @s primeir@s a se apropriar de um sensibilidade crescente em toda parte, e comecar a falar nesse tal de 'movimento global'. o primeiro dia de acao global partiu de uma iniciativa inglesa (com o 'carnival contra o capital' em 1998 que invadiu o centro financeiro de londres); e foi o mesmo grupo (reclaim the streets!) que co-organizou a primeira conferencia da agp.

isso talvez nao seja tanto merito del@s, mas uma maneira de pensar, e parte do problema que el@s enfrentam hoje. porque em qualquer sentido em que nos brasileiros entendemos o termo 'acao politica', a inglaterra eh um deserto. o partido trabalhista fez em um seculo a transicao que o pt fez em vinte anos, e arrasta consigo ateh hoje todos os sindicatos; de resto, eh uma sociedade de abundancia, que hoje vive uma situacao de pleno emprego, a pobreza em niveis reduzidos... e, tanto historica quanto praticamente, eh um dos grandes 'aspiradores' do hemisferio norte que suga para si a riqueza do restante do mundo. um@ ativista ingles@ eh uma pessoa que sabe que seu estilo de vida eh sustentado pelo trabalho de pessoas em outra parte do mundo; e ao mesmo tempo uma pessoa que ve pouquissima possibilidade de mudar qualquer coisa no seu proprio pais. logo, eh uma pessoa que ve os problemas de lugares muito distantes (e sao muito bem informad@s a respeito), mas nao ve os seus. de quebra, estao no centro do mundo e sabem que uma palavra dita aqui tem muito mais chance de ser ouvida que mil palavras ditas na africa.

esse pouco explica muita coisa. entre elas, a grande qualidade que o movimento ingles tem (ou tinha), e o seu grande problema. o melhor exemplo disso eh o reclaim the streets!. uma quantidade de pessoas incrivelmente criativas, incrivelmente talentosas e inteligentes, com uma capacidade incrivel de fazer coisas que tinham um impacto midiatico grande e conseguiam passar uma mensagem para varias pessoas. (e claro, nao pode-se desprezar o fato de terem amplo acesso e 'expertise' em instrumentos como computadores, internet etc.)

por outro lado, por causa desse talento midiatico e da falta de perspectivas de um trabalho politico a longo prazo na inglaterra, tambem eram pessoas com uma confianca absurda em acoes espetaculares, como se fossem solucoes magicas que substituissem o trabalho de formiguinha diario. e que se viam -- e em grande medida ainda se veem -- como uma especie de 'departamento de marketing' do movimento global: a luta de verdade eh sempre a dos outros e acontece em outra parte (embora esteja, nove em cada dez vezes, relacionada a inglaterra -- vide iraque), mas el@s podem divulgar.

mas isso ainda era no tempo do reclaim the streets!. hj a coisa eh possivelmente pior. depois do 'carnaval contra o capital', o reclaim the streets! -- que foi um polo aglutinador de varias tradicoes que remontam, no minimo, a acao direta ambientalista dos anos 80 -- se desmantelou em varios pedacos. do grupo de membros de primeira hora do rts!, nesse g8 se ve cada um em uma iniciativa diferente (s. com a dissent!, j. com o exercito clandestino insurgente de palhacos rebeldes, m. com a rising tide, j. com o indymedia).

mas outra hora eu falo mais a respeito.


dias de dissenso

dias de dissenso

pego o trem para edinburgo amanha as dez. a ultima semana jah passei meio lah, no telefone com as pessoas do dissent! que eu conheco que jah estao em edinburgo ou glasgow, alguma delas jah ha mais de mes, com emprego, apartamento e tudo. todas elas nao-escocesas: algumas de brighton, algumas de leeds, algumas de londres. soh tenho contato com um dos escoceses, e mesmo assim soh por email, e presumo q ele seja escoces por causa do nome.

para quem estah lendo e nao sabe, dissent! eh uma das redes que estah organizando para o g8. possivelmente a mais antiga de todas: desde quando conheci s., em marco do ano passado, ele jah estava trabalhando nisso.

as outras duas redes que estao trabalhando em relacao ao g8 sao a 'make poverty history' e a 'g8 alternatives'. a ultima fez a opcao por sair sozinha, e pelo visto vai terminar assim. comecou como uma coalisao relativamente ampla, com ambientalistas (q sao muitos aqui nessas ilhas), grupos autonomos, a cnd (campaign for nuclear disarmament), stop the war coalition, e globalise resistance. o problema eh que os ultimos tres fazem parte de uma maquina de criar grupos de fachada chamada swp (socialist workers party). o swp eh um partido mezzo-trotskista, mezzo-retardado, que certamente deve ter servido de inspiracao para o monty python quando eles escreveram 'a vida de brian'. eh impossivel conhece-los sem pensar nesse filme, ou em 'pink e cerebro'. eles sempre tem um plano mirabolante que qualquer pessoa, menos el@s, consegue enxergar que eh idiota. assim, o 'g8 alternatives' terminou dominado pelo swp, e para provar o que eu estava dizendo, eles soh estao preparando duas coisas para esse g8: uma conferencia de de um dia (em que voce tem q pagar dez libras para entrar) e uma marcha no dia do inicio do g8, q sai da estacao de trem de auchterarde, caminha ateh gleneagles (hotel/campo de golfe onde serah a reuniao em si) e... volta. brilhante, nao? 'cesar ha de tremer'.

jah 'make poverty history' eh, literalmente, outros quinhentos. comecou como uma articulacao entre ongs: algumas pequenas e sinceras nos seus propositos; outras que sao parte do problema, aplicando politicas neoliberais em paises da africa, da asia, da america latina. el@s focalizaram sua atuacao na questao da divida africana, do comercio justo e de mais apoio financeiro para a africa. ateh aih, tudo bem. o problema eh que el@s (ou as ongs maiores dentre el@s) parecem dispost@s a aceitar qualquer esmola que venha do g8, e dizer 'a africa deve essa ao blair e, principalmente, ao gordon brown' (para quem nao sabe, brown eh o presidente do banco central e o sucessor 'legitimo' do blair). quer dizer, el@s fazem parte da contra-ofensiva de legitimacao do g8, depois de anos em que ele vem sendo contestado e desligitimado publicamente a torto e a direito. pior que isso, qualquer crianca sabe que a 'esmola' do g8 nao eh bem isso: eh dar dinheiro com uma mao, para com a outra exigir 'ajustes estruturais', para que a africa comece a primeira metade desse seculo da mesma maneira que comecou o seculo vinte: com todas as empresas que fornecem servicos publicos pertencendo aos paises... do g8.

(muita gente argumenta: mas eh melhor que seja assim, e a africa eh um saco sem fundo de apoio financeiro que se perde gracas a corrupcao endemica. sim, a corrupcao -- e a falta de respeito as liberdades civis, direitos humanos etc. -- eh gigantesca na africa. mas esse argumento, alem do seu resquicio racista, ignora que para haver corruptos tem de haver corruptores. e os corruptores, de que paises vem? cartas para a redacao.)

mas a 'make poverty history' ('mph', daqui para frente) ganhou espaco na midia realmente depois de receber o apoio de zilhoes de celebridades, em especial sir bob geldof, aquele mesmo que ia salavar a etiopia com um grande concerto de pop horroroso nos anos 80. isso significa muito: para quem nao sabe, a populacao inglesa media nao le nenhum jornal decente (nao digo nem bom; me refiro a jornais com textos, noticias do que estah acontecendo no mundo etc.), mas consome avidamente qualquer porcaria sobre quem quer que esteja na midia. logo, apoio de sir geldof, bono, madonna, o cara do coldplay... tem uma importancia imensa. e assim, a 'mph' virou um fenomeno de midia; sir geldof organizou uns quatro ou cinco megaconcertos simultaneos que vao ajudar nao soh a africa, como a carreira decadente de artistas pop dos anos 80 e 90 (rumores de uma volta das spice girls foram, felizmente, desmentidos); e (felizmente tambem) muitas das pessoas serias originalmente envolvidas com a campanha estao preocupadas porque a 'mph' foi totalmente 'sequestrada' midiaticamente pelas celebridades, e elas se perguntam se haverah, depois dos concertos e da marcha do dia 2, algum interesse no trabalho deles, que continuarah.

e assim caminha a humanidade.

a essa altura voce estarah se perguntando: e a dissent!? a dissent! eh uma rede baseada na inglaterra que buscou desde o inicio faciltar para esse g8 o processo de 'coming together' das pessoas que jah estavam protestando contra o g8 em birmingham, em 97, contra a omc em seattle e praga, a ue em gotemburgo e nice, o g8 em genova... redes e grupos, na europa e fora dela, que tem um perfil de disobediencia civil em sentido amplo: desde 'jardinagem de guerrilha' e midiativismo ateh, eventualmente, quebrar vidracas de macdonald's. que fique bem claro, nao sao os mesmos grupos que fazem uma e outra coisa: mas a posicao da dissent!, enquanto rede, eh respeitar a diversidade tatica dos diferentes grupos, e nao promover (mas tambem nao condenar) o uso de violencia fisica contra patrimonio.

ou seja, se voce ouvir falar mal de alguem, serah certamente da dissent!. (os jornais, em especial o tabloide escoces 'the scotsman', jah preparam o clima para isso. eh muito interessante ler todos os jornais repetirem o mantra 'ninguem quer que se repitam as cenas de violencia em genova'. engracado: ateh onde eu me lembre, as 'cenas de violencia' de um lado foram vidracas quebradas. do outro, a policia italiana atirando na testa de carlo giuliani, e passando duas vezes com a viatura sobre o corpo dele; e no dia seguinte, invadindo a escola diaz e provocando lesoes corporais graves em pessoas que estavam cometendo o crime de dormir.)

mas esse eh um tema ao qual com certeza vamos voltar mais tarde. infelizmente.

a dissent! segue os cinco principios da acao global dos povos (www.agp.org), e portanto, ao inves de convocar um show e uma marcha em edinburgo (como a 'mph). ou uma marcha ao ridiculo (como a 'g8a'), estah chamando para o bloqueio do g8 em gleneagles. mais que isso, para acoes contra um centro de detencoes de imigrantes, uma base nuclear e contra o caos ambiental (alvos ainda nao divulgados). alem disso, vai organizar cinco dias de oficinas, debates e reunioes em edinburgo. a ideia nao eh fazer lobby junto ao g8, mas deslegitimar o g8 e chamar atencao para outras questoes (efeito estufa, a politica criminosa de imigracao que eh apenas o verso da moeda da globalizacao) em que os paises do g8 estao metidos ateh as orelhas.

mais que uma simples diferenca entre ongs e movimentos, eh uma diferenca politica muito clara.

dias de dissenso

dias de dissenso

acho que a maioria das pessoas comeca um blog se apresentando: quem eh, o que faz, essas coisas. eu nao leio blogs. serah q eh isso?

sei lah. nao eh o meu caso.

nao ha necessidade de dizer quem eu sou. e tambem nao vou usar nomes aqui. por dois motivos: um, obvio ou talvez nao obvio assim (mas sobre isso mais tarde), por questoes de anonimidade/seguranca, ou seguranca via anonimidade.

e dois porque eu adorava a coluna do apicius no jornal do brasil, e o fato de que ele sempre ia jantar com 'madame l.', ou almocar com 'mademoiselle s.'. eh uma referencia estranha, eu sei. mas eu adoro isso tambem, entao vamos lah.